
Mais uma edição do BigBrother Brasil inicia na programação da TV Globo, e toda a publicidade em torno dele. Já estão fazendo fórum para o telespectador escolher que seria a nova musa do BBB que assinará o “tradicional” contrato com a revista Playboy. Os aparelhos de TV em todo o país entram em sintonia no horário nobre para acompanhar os acontecimentos dentro da “casa mais vigiada do Brasil”, como carinhosamente chama seu entusiasmado apresentador. Inclusive os televisores de muitos crentes que acompanham os “brothers” em sua escalada para a fama. Inclusive, me parece que tem até uma “irmã” crente entre eles. Ou melhor, como ela mesma se intitulou, “crente praticante”. É, parece que hoje se tornou preciso dizer se você é praticante da sã doutrina ou apenas mais um frequentador da religião evangélica. O que, muito bem nos relembra o querido Pr. Pontes¹, já foi um hábito dos “irmãos” católicos durante as décadas de 70 a 90, para diferenciar aqueles que não seguiam os padrões de pecado de alguns que eram acusados de beberrões, mentirosos e tantos outros adjetivos.
Queridos, não quero aqui ser o juiz de ninguém afirmando ser certo ou errado assistir o tão falado reality show da global rede de televisão brasileira. Nem tampouco que seria certo ou errado um cristão participar de tal programa. Não quero entrar nesse mérito. Só esperamos que a nossa “irmã” praticante não seja a nova contratada da revista masculina, o que no mínimo, seria contraditório com seu título autoproclamado. Mas não se espantem se em algum dia vocês assistirem algum participante do programa se aproximar da moça e cantar “irmãzinha, delícia... ai se eu te pego”, com voz de esquilo e tudo. O que eu quero chamar atenção aqui é exatamente essa diferenciação que foi preciso ser feita pela moça para que todos saibam quem ela é (será?). Muito parecido com um conceito antigo que a Bíblia chama de santificação. Então aproveito o ensejo para compartilhar uma mensagem escrita nessa mesma obra literária (sim, literária, porém, profética), que é a Palavra de Deus. Então vamos lá.
O apóstolo Paulo escrevendo aos Filipenses diz em sua carta, no capítulo 3 versículos 17 a 21:
Irmãos, sede meus imitadores, e atentai para aqueles que andam conforme o exemplo que tendes em nós; porque muitos há, dos quais repetidas vezes vos disse, e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo; cujo fim é a perdição; cujo deus é o ventre; e cuja glória assenta no que é vergonhoso; os quais só cuidam das coisas terrenas. Mas a nossa pátria está nos céus, donde também aguardamos um Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o corpo da nossa humilhação, para ser conforme ao corpo da sua glória, segundo o seu eficaz poder de até sujeitar a si todas as coisas.
E ainda no capítulo 4 versículos 8 e 9:
Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai; e o Deus de paz será convosco.
O apóstolo aos gentios estava aqui nesse trecho da carta preocupado com uma dificuldade que os irmãos de Filipos estavam passando devido a pressões exercidas por falsos ensinamentos que estavam pondo em risco o testemunho dos crentes no mundo. Um grupo de religiosos que se diziam cristãos, estava praticando e ensinando hábitos que causaram polêmica dentro da igreja, e, de fato, estava levando os fiéis em Cristo a serem tentados a praticarem obras das quais o apóstolo os relembra que não estão de acordo com a moral divina a qual os salvos em Jesus um dia assumiram o compromisso de viver. Provavelmente ele havia recebido alguma carta de algum membro ou grupo de membros que viviam naquela cidade, relatando tais hábitos e a situação em que se encontravam. O apóstolo possuía laços de amizade fortes com os crentes em Filipos, inclusive citando o nome de alguns que chegaram a auxiliá-lo na obra missionária. Talvez alguns dos que primeiro se converteram naquele lugar e ajudaram no início da igreja cristã, e que conheciam a Paulo e seu testemunho. E é apelando a esse testemunho que Paulo inicia o trecho (v. 17) em que convoca os cristãos a se afastarem das práticas que não condizem com os ensinamentos que ele havia passado àqueles irmãos (cf. 4:8-9).
Paulo diz, “sede meus imitadores”, expressão que ele repete nas cartas aos Coríntios (4:16; 11:1) e aos Efésios (5:1). Paulo não apenas está apresentando aos filipenses um exemplo de cristão que eles deveriam seguir, mas ele estava expondo a si mesmo e os desafiando a tomarem uma postura que fosse contrária ao que já estava se tornando comum entre os filipenses. Uma postura que não agradava a Deus. Esta era a postura daqueles que Paulo, com muita tristeza (v. 18), chama de “inimigos da cruz de Cristo”. Oh irmãos, quão profunda e negativamente seria um cristão ser considerado pelo apóstolo amado como um inimigo da cruz de Cristo. Isso seria semelhante ao que ouvirão do próprio Cristo no dia da sua volta, “nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7:23). Provavelmente se algum dos leitores da carta tivesse chegado a ouvir estas palavras de Cristo, ou ouvido o testemunho de alguém que esteve com ele, teria sentido uma dor no coração que com certeza o faria a mudar sua postura para a nova postura a que Paulo clama que sigam (apesar de se tratar de um princípio divino eterno ensinado anteriormente), caso esse leitor estivesse praticando tais obras. E que práticas eram essas, afinal?
Paulo, segundo o comentário da Bíblia de Genebra, poderia ter em mente de forma especial, o grupo de religiosos, que duvidavam da existência carnal de Jesus, sendo ele apenas um espírito puro, colocando, portanto, em xeque toda a doutrina do pecado. Esses religiosos, se consideravam espiritualmente superiores, estando em um nível onde o pecado, que habita na carne, não os atingiria, já que viviam em um plano espiritual superior, assim como Cristo habitou apenas um plano espiritual. Portanto, tinham a falsa liberdade de que podiam praticar quaisquer obras em vida, já que o pecado nunca atingiria o plano espiritual no qual viviam, estando eles livres de caírem na condenação mortal que o pecado traz aos que ainda não haviam alcançado esse nível de espiritualidade. Porém Paulo, vos lembra que devemos viver de modo digno para com a cruz de Cristo, mortificando nossos desejos pecaminosos e buscando viver em santidade, o que é condizente com nossa cidadania celestial. E aqui está o segredo de tudo. O que na verdade esses falsos mestres ensinavam e praticavam nada mais era que um estado de libertinagem que os desobrigava da vida de santificação que agrada a Deus. Pois o que na verdade queriam, era apenas viver seus prazeres e desejos carnais de maneira livre e sem o compromisso com a santidade (separação) divina. Pessoas cujo deus era o ventre e a glória estava nas coisas vergonhosas que praticavam. Provavelmente comilões e beberrões, e praticantes de todo tipo de libertinagem sexual. Pecados claramente condenados por Deus, agora estavam sendo legitimizados por aqueles que só pensavam na vida terrena.
A cidade de Filipos era uma colônia de Roma, onde viviam alguns soldados aposentados, e ficava na passagem entre o oriente e a capital do império. Paulo se aproveita dessa realidade para nos ensinar que também não somos deste mundo. E que a Igreja de Cristo aqui na terra não passava de uma colônia da nossa pátria celestial (v.20). Ora, para alguns pode parecer mais um motivo para o qual não nos preocuparmos com nossas ações e modo de vida enquanto habitantes desse mundo. Mesmo os libertinos inimigos da cruz de Cristo, que viviam de um modo, segundo eles próprios, livre de obrigações morais, pois o que importava apenas era aproveitar a vida, iriam encontrar nessa verdade um motivo pelo qual continuar praticando suas obras carnais, visto que um dia o próprio Cristo viria transformar nosso corpo destrutivo em um novo e glorioso corpo (v.21). Porém o apóstolo nos ensina nesse trecho o quão incoerente e contraditório seria vivermos em práticas desonrosas e dissonantes com nossa cidadania eterna se estamos vivendo em uma colônia do mundo que há de vir. Nem o mais desatento beberrão ou o mais rebelde viciado sexual seria burro o suficiente para desobedecer alguma norma de conduta dentro de uma colônia do império, sabendo ele que toda a lei romana possuía jurisdição sobre todas as colônias. Da mesma forma, todo cristão deve saber que, se vivemos em uma colônia terrena do Reino Celestial, então devemos viver de acordo com a Lei de Deus, de modo que possamos ser reconhecidos como cidadãos desse Reino. Pois um dia iremos morar nas cidades celestiais, uma vez já tendo abandonado a colônia terrestre e temporária na qual hoje estamos como peregrinos.
Então como deve ser o procedimento de quem é um cidadão do Reino Celestial? Paulo já responde a esta pergunta logo depois. Primeiro, firmes no Senhor (4:1 sendo citado agora). Em seguida Paulo - diferente de alguns (judaizantes) que também estavam perturbando os crentes filipenses condenando-os por não imitarem suas práticas ascéticas de separação física do mundo, reclusando-se em cavernas e mosteiros - indica como deveria ser o modo de vida do cristão que entendeu que é um cidadão do Reino Celestial. E ele dá o padrão moral, a régua medidora, o instrumento de avaliação das práticas e ações humanas (4:8-9). E para não cair no erro de listar nominalmente algumas coisas e esquecer outras, ele se utiliza da expressão “tudo o que”. Adjetivo pronominal relativo, também pode ser traduzido como “tudo o quanto”, escrito no gênero neutro plural, para que possa passar a ideia pretendida de que qualquer coisa que o cristão venha a possuir, qualquer ato, qualquer palavra dita, qualquer postura, vestimenta, comida ou bebida, lugar, evento, obra, companhia, etc., deve estar de acordo com a moral divina de santidade, amor, justiça, verdade, bom testemunho, que possua caráter aprovado e digno de ser elogiado. Tudo isto junto e misturado é o que deve ocupar a mente e os desejos dos cristãos. Pois todas essas coisas foram ensinadas por Paulo (v.9), os demais apóstolos, e o próprio Cristo, sendo esse o fundamento da fé cristã. E assim Deus com sua paz estará guiando o caminho do crente, enquanto aguarda sua redenção e glorificação celestial. Que assim sejamos nós, vivendo em concordância com os valores eternos do Reino de Deus, e não de acordo com os padrões distorcidos e carnais deste mundo mau e daqueles que se auto-intitulam mestres do saber.
Para concluir, deixo as palavras do amado irmão Clive S. Lewis, reproduzidas na letra da música da australiana Brooke Fraser.
No amor de Cristo, o Rei,
Teólogo pelo seminário Juvep
Estudante de comunicação na UFPB
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